O Violino e além!

Texto por: Alexandre Cunha

O democrático violino esbanja versatilidade, caminha com desenvoltura pela música folclórica irlandesa e o country norte-americano, gêneros em que é chamado de fiddle, remetendo à sua versão medieval. Passeia também pelo klezmer judaico e o jazz, passando pelo tango argentino, o choro brasileiro, o rock e o pop, e claro, a música de concerto, também chamada erudita.

Os físicos dirão se tratar de um seletor de frequências altamente especializado. O linguista, que é uma viola pequena. O político, que é um hobby. O museólogo, que é uma rara combinação de arte e ciência. O designer, que é um projeto que não pode ser melhorado, como o ovo ou a roda. O músico, que é sua cara metade. E o leigo, que é apenas um instrumento.

Todos estão certos, a partir de suas próprias perspectivas, mas o que de fato importa é o poder que o violino e os demais instrumentos têm de estabelecer uma conexão muito especial entre um músico e seu público, em uma linguagem que precede e prescinde da palavra, logo, universal por natureza.

As artes, a filosofia, a religião e a ciência, são os caminhos que criamos, e que buscam, cada qual a seu modo, responder às questões fundamentais: os “como” e “porquês” existenciais.

Das artes, a música é a mais subjetiva, efêmera, intangível e nisto reside sua potência, explico: a física quântica postula que, no nível subatômico nada é de fato sólido, tudo que existe vibra em uma assinatura energética única, exatamente como a onda sonora! Nessa mesma perspectiva, Richard Conn Henry, professor da Academia de Física e Astronomia da Universidade de Hopkins, em seu livro “O Universo Mental” declarou: “Supere isso e aceite a conclusão indiscutível.  O universo é imaterial, mental e espiritual

Os benefícios da experiência de ouvir e de fazer música, além do que sentimos e percebemos empiricamente, têm sido estudados também por neurocientistas, corroborando o que já intuíamos: ficamos mais inteligentes e felizes. E esse é o principal argumento do motivo pelo qual, toda criança deveria ter o direito de aprender música, independente de possuir ou não aptidão musical.

Portanto, na próxima vez que ouvir uma corda de violino ou uma orquestra vibrarem, você está experimentando mágica! Aquele som está sendo criado em tempo real e, uma fração de segundo depois, já não existe e não pode nunca mais ser replicado em função de todas as variáveis envolvidas! Assim como a vida, não têm ensaio. O pré-requisito é estar vivo, presente e disponível. E você poderá ser recompensado com beleza, comoção, lembranças, “insights” – desde que tudo corra bem… 

O documentário From Mao to Mozart, produzido em 1979, nos oferece um vislumbre do exato momento em que a China, após a proibição da música ocidental, que perdurou até 1960, decide se apropriar da tradição e da riqueza que ela representa. 

O maestro Isaac Stern é o primeiro músico ocidental chamado para compartilhar sua arte. O diagnóstico, evidente até para os não músicos, é que os jovens chineses, apesar de extremamente habilidosos, tocam de forma mecânica exatamente por não estarem, até então, familiarizados com aquele discurso musical e menos ainda com o contexto histórico das obras e seus autores. 

Os números costumam ser superlativos quando se trata da China: escolas com dez mil alunos, salas com trezentos “Steinway & Sons” de cauda inteira para aulas coletivas. Estima-se que, neste momento, cem milhões de jovens em idade escolar, aprendem violino e/ou piano no país, sendo que os que se destacam recebem propostas acadêmicas vantajosas, semelhantes àquelas oferecidas aos desportistas nos EUA. Tudo isso, além da iniciativa privada, como por exemplo a Chi Mei Foundation, que oferece bolsas de estudo e empréstimo dos instrumentos de sua coleção – considerada a maior e das mais importantes do mundo – aos jovens solistas que de outro modo não teriam acesso. Os chineses são, ainda, os maiores produtores mundiais de instrumentos de baixo custo, destinados aos iniciantes.

Depois da China, outro bom exemplo vem da Coréia do Sul. A Orquestra Filarmônica de Seoul, fundada em 1948, é uma das mais antigas do país. Na década seguinte, esse país, até então mais pobre que o Brasil e com um IDH  (Índice de Desenvolvimento Humano) também menor, decide apostar todas as fichas no ensino fundamental de qualidade, formação e valorização de professores. 

O resultado foi que na década de 80, a renda média per capita do coreano já representava o triplo da brasileira. Hoje 80% da população tem nível superior. O investimento em música clássica seguiu a mesma trajetória e, mais recentemente, o K-pop, traduzindo-se em aumento de influência geopolítica, o “soft power”, e numa economia baseada na cultura. Nas palavras do ministro da educação daquele país: “como não temos muitos recursos naturais, decidimos investir em pessoas”.

Qual cidade no mundo conta com oito orquestras sinfônicas completas, profissionais, trabalhando em tempo integral, e quase sempre com casa cheia? Se você respondeu Viena, Londres, Moscou, Nova York ou Berlim: errou. Tokyo – é a resposta correta! Desde o século XIX quando o Japão se abriu para o ocidente, a música clássica ocidental é apreciada e ensinada dentro do currículo escolar regular. Tokyo é o epicentro da música de concerto na Ásia.

Todos esses exemplos para constatar que, fora da educação, da ciência, da cultura e da arte, que são facetas da mesma moeda, não há salvação! Sem isso, as pessoas e a terra ficam planas.

E o Brasil? Bem, o Brasil nunca esteve tão em brasa, literalmente. Mas vamos falar de música! Nós temos a melhor música popular do mundo, talento, ritmo e poesia nunca nos faltaram. Mas qual a relevância da música “erudita” em um país onde quase metade da população não tem esgoto tratado? Falso dilema, assim como saúde x economia e etc. Não são prioridades excludentes, pois podemos argumentar que um povo educado e com acesso à cultura, não aceitará tão passivamente não ter esgoto tratado.

A música clássica nada mais é do que uma vasta coletânea de diversos estilos e períodos do que de melhor se produziu ao longo dos séculos. E quem decidiu o que merecia ou não ser tocado e preservado foram os músicos e o público, não os musicólogos nem tampouco os especialistas. De modo que, a pretensa erudição necessária para a devida apreciação da música de concerto não constitui apenas uma bobagem, mas antes, uma construção elitista.

O que a história nos conta é que compositores que desfrutaram de prestígio e apoio político em vida foram, muitas vezes, relegados à lata de lixo da história. Ao passo que os gênios, que morrem muitas vezes sem plena noção de sua grandeza, podem enfrentar algum ostracismo como Bach, que passou quase um século apagado e foi resgatado por Mendelssohn no século  XIX em toda sua glória.

Tom Jobim sofreu influência assumida de Villa Lobos e Debussy, além da própria Música Popular Brasileira como o samba, o choro, o maxixe e etc.., nascida aqui da mistura das matrizes africana e européia. Villa Lobos foi, profundamente, inspirado por Bach e o gênio de Leipzig por sua vez, influenciado pela obra de Palestrina.

Sob esse aspecto, arte e ciência convergem: evidentemente, Einstein e Bach tiveram o poder de apontar e iluminar os caminhos, mas o importante é que cada indivíduo que decida trilhar esses caminhos, dê sua contribuição única, por ínfima que pareça, carregando a tocha com amor e disciplina. Ser músico ou cientista, portanto, é realizar trabalho colaborativo em prol de algo maior.

Tradição é um conceito recorrente que se esgueirou pelas entrelinhas desse texto e isso não foi de antemão planejado. Receio que sua insistência, que me escapa, confunda-se com os próprios requisitos para que uma criação seja considerada uma obra de arte: qualidade estética intrínseca (mensurável, não se trata de conceito subjetivo), perenidade, capacidade de permanecer relevante ao longo do tempo e estabelecer diálogo com diferentes povos e culturas. 

Nesse contexto, a principal função da tradição é a de conservar o que tem valor. Ainda que seu significado possa ser desvirtuado com frequência na contemporaneidade. É o caso, por exemplo, das touradas, o costume de soltar balão, dos incêndios intencionais em trechos da floresta para fazer pasto, resultando na extinção de espécies raras e preciosas como o pau-brasil… Nesse último caso, a responsabilidade é, naturalmente, atribuída ao próprio gado (a tese “científica” do boi-bombeiro)…

Voltando ao subtítulo desse texto, “e além”, poderia antecipar algum devaneio, mas o violino retorna triunfante agora no final. É nessa perspectiva que proponho uma campanha pela liberação do porte de arcos para menores de idade! De preferência, com supervisão dos pais, para evitar o uso excessivo.

De tudo o que já foi dito sobre o violino, uma das frases mais intrigantes é a que escutei do Sérgio Schreiber, cello solista da Osusp: “Nós (instrumentos de orquestra), somos os últimos acústicos!”  Isso nos coloca como espécie em extinção ou como pioneiros de um novo tempo?

Aposto no violino e nos demais membros desta família! Por estas e outras, quando alguém disser que existe um instrumento muito mais legal que o violino, sorria piedosamente, eles não sabem o que dizem! Brincadeiras à parte, perdoem a modéstia deste violinista apaixonado por seu instrumento.

Orquestra Juvenil da Bahia em Paris, 2018.

*Este episódio é dedicado à Profa. Raquel de Oliveira Moro (e seus alunos!), que nas comunidades do Borel e do Alemão no Rio de Janeiro, ensina violino, cidadania e esperança.