Saiba mais sobre a história do arco do violino.

O Arco: Ilustre coadjuvante

Texto por: Ale Cunha.

O violino pode reclamar para si o estrelato entre os instrumentos de cordas, entretanto, em que diferem suas cordas, das dedilhadas do violão, pinçadas do cravo e percutidas do piano? A fricção da crina do arco sobre as cordas, fazendo-as vibrar, é responsável pela vibração que será absorvida e amplificada pela caixa acústica, determinando assim a natureza do som; sua intensidade, expressividade e timbre característicos. Portanto, o arco e o violino constituem um todo indissociável e interdependente: Dom Quixote e Sancho Pança.

Giovanni Battista Viotti (1755 – 1824), compositor e violinista virtuose, parece ter sido a primeira figura proeminente a entender em profundidade o papel fundamental de nosso ilustre coadjuvante, tendo o maestro declarado que: “O violino é o arco!”

Retrocedendo alguns séculos, os primeiros registros de um objeto com função semelhante à desempenhada pelo que hoje chamamos de arco, remontam ao século V durante o Império Bizantino. Esse parente distante do arco como o conhecemos hoje, era utilizado para tocar instrumentos antigos como o Rebeq árabe e o Hurdy-Gurdy ou violino medieval, ancestrais do violino moderno. Consistia numa versão rudimentar, algo com uns poucos fios presos às duas extremidades de uma vareta curvada em forma de arco. Ao longo de toda a Idade Média isso pouco mudou, pois, como sabemos, até o século XVI (Renascença), a primazia era da música vocal. 

Desde o Renascimento até o final do período barroco, o arco irá pouco a pouco se transformar em função das novas exigências técnicas do repertório e dos primeiros solistas. Pontas alongadas e afastadas da crina, formatos menos convexos ou quase retos, talão destacável permitindo uma melhor distribuição de peso, e sobretudo, regulagem da tensão da crina por meio do sistema de *cremalheira; resultando num aumento de controle e precisão.

Os arcos, em especial na primeira metade do século XVIII, são finamente talhados em belas madeiras exóticas tais como o pau-cobra, pau-ferro e a amourette, e passam a ser identificados, dentre a profusão de modelos existentes, segundo o solista que os adotou.

O diagrama acima, compilado pelo compositor francês Michel Woldemar (1750 – 1815) e publicado a posteriori, nos ajuda a visualizar essa evolução.

Desta íntima colaboração entre o músico e o artesão (até então anônimo) que fazia os arcos, emergirá a figura do Archetier, (arqueiro, numa tradução livre, ou fabricante de arcos), enquanto ofício autônomo e especializado.

Além de artesãos independentes, que passam a viver exclusivamente da arte de construir arcos e assinar seu trabalho, organizam-se negócios familiares como os Knopf na Alemanha, os Dodd na Inglaterra e os Tourte na França. E é desta última família que emergirá o gênio responsável pelo último salto evolutivo do que hoje reconhecemos como o arco moderno, o grande archetier François Xavier Tourte (1748 – 1835), conhecido também como Tourte “Le Jeune” (o jovem), a fim de diferenciá-lo do pai, Nicolas Pierre Tourte e do irmão, Nicola Leonard Tourte. Começa a produzir suas “baguettes” (baquetas), em parceria com o irmão mais velho a partir de 1775, e os arcos produzidos nesse intervalo até 1790, estão dentro da concepção do arco clássico, pré-romântico ou de transição, e somente após 1800, quando se estabelece como Maître Archetier independente, que se dará sua revolução singular.

Especula-se que sua atuação pregressa como relojoeiro e ourives, além da aplicação de princípios matemáticos à sua prática artesanal, guardem relação direta com o nível de perfeição alcançada em sua arte.

Entre os avanços propostos pelo mestre, destacam-se:

  • A definição do **pau-brasil de Pernambuco, como a madeira ideal, reunindo características únicas de flexibilidade e resistência, além de suas desejáveis propriedades acústicas;
  • O aumento do comprimento e do peso da baqueta;
  • O uso do fogo na obtenção da curvatura;
  • A curva côncava em relação à crina; 
  • O sistema de porca e parafuso do talão, permitindo um ajuste mais preciso da tensão da crina;
  • O uso de materiais nobres no talão, como ouro e prata, além dos politicamente incorretos, como marfim e casco de tartaruga, que conferem ao arco o status de jóia, que se soma à sua função.

Essa evolução se deu também, em boa medida, graças à sua parceria com Viotti, que foi capaz de fornecer a Tourte uma visão privilegiada das necessidades do músico, do ponto de vista de um virtuose, no momento em que o repertório para violino solo se expande e ganha maior complexidade técnica. Essas mudanças pedem um arco que favoreça a produção de sostenutos e legatos, na tentativa de emular a voz humana, além de volume e projeção de som pelo violino solista, em salas cada vez maiores, acompanhado por orquestras também maiores, de acordo com o novo ideal romântico do solista herói e do conceito de gênio. 

Alguns pequenos avanços ocorreram após Tourte, por exemplo: a canaleta de prata entre o talão e a baqueta, usada por F. Lupot, ou ainda, o aumento da largura da ponta proposta por Vuillaume, além de variações estilísticas aqui e ali, mas nada que distinga estruturalmente o arco feito hoje dos projetados por Tourte. De fato, seu projeto se consolidou como modelo de excelência e influenciou todas as gerações subsequentes de autores franceses e mundo afora, durante todos os séculos XIX e XX.

Por esses motivos, solistas e colecionadores estão sempre dispostos a desembolsar pequenas fortunas, nas raras oportunidades em que algum de seus arcos é oferecido no mercado. Reforçando o mito deste que também é chamado de “Stradivari dos arcos”.

Hoje em dia, com a facilidade de acesso à informação, a arte de fazer arcos se tornou um tanto globalizada, sendo possível encontrar arcos de ótimo nível em toda parte. Isso, no entanto, só foi possível graça às conquistas e ao conhecimento acumulados historicamente pela tradição. Portanto, para fazermos justiça, quando pensamos em queijos, vinhos, baguettes e… no arco moderno! Não podemos deixar de reconhecer:

Oui, vive la France!

Veja o sistema dentado de encaixe: 

https://collectionsdumusee.philharmoniedeparis.fr/image.ashx?q=https://mimo-international.com/media/CM/IMAGE/CMIM000026425.jpg

Para saber mais, sugerimos o documentário A árvore da Música, que trata do processo da extinção dessa riqueza estratégica do Brasil.

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