Saiba mais sobre a história do Violino

A Chorda das cordas:

Afinal que “objeto” é esse, que confere identidade – a ponto de ser usado como sinônimo – à extensa família que inclui violinos, violas, cellos e contrabaixo, de cordas friccionadas, que pode ser tratada, simplesmente, por “as cordas”?

A etimologia nos ajuda a desvendar a questão. A palavra tem origem no grego khorde que entrou para o Latim como chorda, com o significado de tripa animal, ou, neste caso, intestino de ovelha (quase sempre), lavado, seco, esticado, torcido e trançado.

Diz a lenda que Apolo teria sido o primeiro fabricante de cordas para suas liras, mas fato é que na história da música ocidental, a tripa animal reinou absoluta como material ideal para a confecção de cordas até o fim do séc. XIX; tanto pela conveniência, dada a farta disponibilidade do produto, quanto por suas qualidades intrínsecas, como flexibilidade, complexidade de timbre etc.

Na verdade, para músicos que fazem música antiga e barroca, a tripa continua sendo a escolha natural ainda hoje. Um pequeno fabricante italiano atende esse público fiel, seguindo receita original de 1850, em que o mítico virtuose Niccolò Paganini encomendou por escrito a seu fornecedor, cordas com instruções detalhadas e precisas, além de apresentar ressalvas e sugestões sobre a remessa anterior, anexando uma corda como exemplo das correções desejadas. Incrível!

Entretanto, exatamente a partir da segunda metade do séc.XIX está em curso uma grande mudança no paradigma do fazer musical, como a primazia do violino e do piano, a escrita romântica, o solista onipotente. O aumento de tamanho das orquestras e, consequentemente das salas de concerto vai demandar maior potência sonora, o que só poderá ser alcançado com inovações na construção dos instrumentos e adequação dos antigos tais como aumento no comprimento e ângulo do braço, com o consequente aumento na altura do cavalete. Em oposição a estas novas forças, temos também uma barra harmônica maior. Nesse momento, a tripa sozinha deixa de ser a escolha óbvia, a despeito de suas qualidades, pois ela se rompe sob tensão muito acentuada, muito instável quanto `a afinação, além de ser ainda bastante perecível e de difícil “tocabilidade”, consideradas as novas exigências do repertório virtuosístico.

Em 1890, Gustav Pirazzi, em parceria com Theodor Strobel, dando continuidade à empresa familiar fundada por seu avô 12 anos antes, começa na Alemanha uma das duas grandes empresas existentes, fabricantes de corda. Mas foram exatamente seus concorrentes, Dr. Franz Thomastik um construtor de violinos e Otto Infield engenheiro civil ambos oriundos da monarquia austríaca, que trazem à partir de 1919 a primeira grande revolução: a corda de aço inoxidável. O aço representou grande avanço em termos de potência, durabilidade e confiabilidade porém com prejuízo do timbre.

O passo seguinte, inevitavelmente, foi a combinação desses dois materiais: um miolo de tripa recoberto de aço, visando ao melhor dos dois mundos. Até 1970, os avanços vão se concentrar nos métodos de produção, desenvolvimento de maquinário, qualidade da matéria prima, acúmulo de know-how (saber fazer) em resumo.

A segunda grande revolução se dá com a substituição da tripa animal por perlon, uma fibra sintética produzida a partir do nylon, recoberta por aço, alumínio ou prata. Nesse momento, podemos dizer que nasceu a corda moderna, que se tornou um padrão, com alto grau de aceitação (e satisfação) entre os músicos. É o tipo de corda que recomendo quando se quer conhecer um novo instrumento, por ser a que menos interfere na natureza do instrumento: é como voltar pra casa.

Com o advento de novos materiais hi-tech como, titânio, tungstênio, ligas de prata e ouro e aços tratados quimicamente, podemos afirmar que vivemos um momento privilegiado na oferta de cordas, tanto em qualidade quanto em variedade.

Peter Infield, CEO da empresa vienense e uma espécie de Steve Jobs do mundo das cordas, recentemente falecido, declarou: “Se não existe uma única corda que seja perfeita para todos, existe pelo menos uma que seja perfeita para cada um”. Ele alerta ainda para a importância da escolha adequada de cordas para cada instrumento: “você consegue corrigir deficiências e ressaltar qualidades de um instrumento regular ou estragar um grande instrumento dependendo de suas escolhas…”

Leio as afirmações mais como um desejo do que como missão cumprida: se por um lado é inegável que existe um nível de excelência sem precedentes, as cordas param afinadas rapidamente e têm características previsíveis: você sabe exatamente o resultado de usar esta ou aquela corda, que se repetirá, regularmente, a cada substituição. Certamente o próximo jogo vai se comportar exatamente como o anterior etc…

Por outro lado a prática mostra que se você esticar arame ou tripa sobre um Stradivari, ele permanece soando além dos padrões, ao passo que o jogo de cordas mais sofisticado do mercado não vai transformar seu violino num Strad.

Além das infinitas variáveis, como instrumento, arco, crina, breu, música, quem toca etc.. a corda ideal precisaria satisfazer um limite que me parece intransponível, o som ideal. A corda é tangível, mas música não é deste mundo. Além disto, o artista é um insatisfeito, por definição: tem dia que só quer o calor e a doçura de uma tripinha; em outros quer arrancar as próprias, ou as de alguém, reclamando aço puro!

Poucos dias atrás me mandaram o link de uma nova corda mi, que promete resolver de uma vez por todas o tradicional e irritante assobio. Curiosamente, a solução vem de uma torção em forma de mola no trecho de corda entre o estandarte e o cavalete, que se assemelha muito em conceito e design a 1a chorda.

Coincidência? Talvez sim mas longe de se esgotar, quem há de negar, com o perdão do trocadilho; que este assunto é visceral!?

Texto por: Ale Cunha – Violinista da OSUSP

*data original, 2007

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